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  • Ive Nenflidio

Se Chover? (Parte 2)

Atualizado: Jul 15

Pedi pra chover, mas chover de mansinho (Luiz Gonzaga)


Finalmente, chegávamos à cidade de Picos. Era quente, um calor intolerável, e eu ainda desejava um café da manhã, sendo que, há pouco, de novo me disseram “não”, dessa vez por já terem finalizado o serviço.

Sem comida, esperei desesperadamente que o atendente liberasse as chaves do quarto, pensando que, talvez, no frigobar tivesse um achocolatado e biscoitos, quem sabe.

O jovem tapera que nos atendia detinha um ar afobado, era caótico, entregava as fichas aos viajantes, concomitantemente falava ao telefone, estirando o fio que parecia rebentar. Pelo jeito, éramos os únicos hóspedes da inospitaleira hospedaria. Não sei se por hostilidade, liberou a chave de todos do grupo, menos a minha, de modo que, na minha infindável espera, aguardava agoniada para ir ao meu aposento. Estava exaurida, completamente acabada, suada e faminta.

Quando, por fim, entrei no quarto, comecei esmiuçar cada canto daquele espaço limitado. Notei que o frigobar estava vazio e desligado do interruptor. Liguei para a recepção, questionando o motivo, e, então, o jovem informou que a geladeira era uma cortesia, eu deveria ligá-la e abastecê-la com produtos que eu poderia adquirir no centro da eremítica cidade.

Como uma boa escorpiana, com ascendente em Áries, tive vontade de gritar, surtar, mas respirei fundo, acalmei e saí em busca de alimento. Depois de saciar minha fome, fui descansar algumas horas, tinha que produzir o evento, me dirigindo mais cedo ao local.

Já pronta, saciada e descansada, aguardei o ex-jogador de futebol; assim que ele chegou, nos deslocamos ao local onde aconteceria o festival. Era um grande salão, comportava mais de mil pessoas.

Na casa de espetáculos, as mesas eram cobertas por longas toalhas, que iam até o chão, e cadeiras estofadas; havia também, pequenos espaços com sofás e poltronas. Um lugar elegante e ostentoso, em uma região tão pobre, era surpreendente. A desigualdade era escandalosa. Porém, ali também não havia teto, assim como no banheiro do senhor sisudo, o qual não tinha qualquer cobertura.

Eu observava o céu: nuvens escuras e um vento muito forte. Tive de prender os cabelos, uma poeira insistia em cegar, uma ventania típica de grandes tempestades. Rapidamente, busquei a produtora responsável pelo evento e perguntei o que fariam caso chovesse; a jovem sorriu e, educadamente, respondeu que choraria de felicidade.

Não chovia naquela cidade sertanista há mais de uma década!






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