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  • Ive Nenflidio

Retirante (Poema publicado na Revista Cultural Traços)

Atualizado: Jul 15

Retirante


Das bandas do norte, da terra vermelha

Margaridas e Joaquins morrem jovens,

corpos findam como a desguarnecida lavoura,

terra de seres desprezados,

cacimbas vazias,

gente com olhos de fome e escassa colheita


A estiagem é severa

e, ano após ano, intensas lamúrias

Terra rachada, terra estreita,

desafortunado pássaro do livramento

de muitos lamentos em sua triste melodia


Noites dolorosas de nuvens tempestuosas

que anunciam um cruciante tempo,

tempo da desventura,

tempo da carência, gastura, contingência

Nas bandas de lá, amplidão celeste

Não tem chuva, nem um pranto,

triste seca, crianças com fome

e o corpo que some


São bravos,

são guerreiros os sertanejos,

lágrimas secam no rosto do ancião,

sertão nordestino,

na festa do padroeiro

procura acalmar o coração,

triste destino


Na procissão um miúdo corpo pagão,

mirrado falecido passa em vão

Homem cristão e as velhas com velas nas mãos,

sem lágrimas não banham o chão

Patativa rasante,

triste pássaro do sertão, cantoria estrondosa

E migra, partiste, fugiste.

Tanta dor e um aperto no coração

Mais uma seca,

mais um tempo de privação,

lavadeiras rezam a Ave-Maria

e as mães cantam suas queixas nas romarias


São Severinos, são Marias

Lágrimas do silêncio

Água turva, terrível prenúncio

Vai!

Busca teu destino!

Como os pássaros migratórios,

voa... Busca outras terras!


Quiçá uma casa estrangeira,

uma vida ligeira, e, na triste lida

se ocupam de sol, vento e céu,

mulheres de fé, pedem a Deus

ajoelhadas com seus terços e véus,

mas a chuva não vem

Couro queimado, só fogaréu,

mísera lamentação, que cena cruel...

A seca mata o bicho,

mata o homem

Naquelas bandas não tem Noel.

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