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  • Ive Nenflidio

O Velho do Glória


Algumas passagens são mesmo horripilantes. Frequentei muitos teatros antigos, espaços arquitetônicos tombados pela importância histórica e cultural, alguns com duzentos ou até trezentos anos.

Nesses locais, preferia não me afastar muito do restante da equipe, nunca percorria sozinha os fossos de orquestras ou, como são conhecidos, poços orquestrais – espaços abarrotados, obscuros, cheios de quinquilharias, estantes de partituras, cadeiras quebradas, praticáveis e objetos cenográficos.

São espaços misteriosos, quase secretos, cheios de barulhos enigmáticos. Os profissionais desses equipamentos diziam que esses ruídos eram passos de artistas que amavam o local e que, após morrerem, permaneciam ali, não desencarnaram.

Ouvia as histórias e, apesar de sentir arrepio, considerava aquelas narrativas patéticas, puro artistismo. Brinquei que aquilo era parte da encenação, me despedi do maquinista, zombando daquela narrativa, e me desloquei até o hotel.

O Hotel Glória era um espaço tão arcaico quanto o velho teatro, um antigo palacete do início do século XX, cheio de glamour e ostentação. Fui para o meu quarto. Naquela madrugada, acordei assustada com um homem de características amistosas me olhando. Aterrorizada, corri, acendi todas as luzes e comecei a procurar o idoso senhor de olhar afável. Procurei dentro do armário, no banheiro, em todos os cantos, mas nada, aquela visão havia desaparecido. Nunca mais debochei dos artistas fantasmas.

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