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  • Ive Nenflidio

O Sertano


Nos meus mais de vinte anos de carreira na área artística, presenciei situações inusitadas, muitas engraçadas, outras trágicas.

Vou contar uma história que gosto muito: em 2002, conheci pessoalmente um gênio da música brasileira, definido por Vinícius de Moraes como o príncipe da caatinga.

Trata-se de Elomar Figueira Mello, um artista excêntrico, compositor de óperas e cantorias, e que consegue, como ninguém, expressar a beleza de um Brasil inexplorado. Muitos o consideram um menestrel que produz sua obra inspirado nas cantigas da Antiguidade. Para mim, é um dos maiores poetas da música brasileira, suas realizações artísticas são tão grandiosas e belas que me faltam palavras para descrevê-las.

De temperamento recluso, não permite ser fotografado, não aprecia a intensa exposição da imagem, acredita que os artistas devem ser reverenciados pelo trabalho desenvolvido, sem ter que se sujeitar às artimanhas da indústria fonográfica.

Não concede entrevistas, prefere ser autônomo e independente em suas produções. Se você o procurar na internet, por exemplo, encontrará pouquíssimas matérias ou fontes sobre ele e sua obra. Entretanto, seu acervo artístico é inspiração para muitos e é utilizada como fonte de trabalho e pesquisas para dissertações acadêmicas.

Poderia dispor, em suas criações, de um variado conjunto linguístico, pois, além do domínio da língua portuguesa clássica e do latim, também compreende línguas estrangeiras, como o espanhol, o inglês e, principalmente, o francês. Entretanto, prefere apresentar o dialeto catingueiro, construindo, a partir da consciência dramática da linguagem, uma poética enraizada no sertão.

Artista genial, é também bastante excêntrico. Lembro de estarmos em um elegante restaurante de Copacabana, ele com seus trajes sertanistas, com um paletó de couro surrado e botas ainda impregnadas de terra. Além do tradicional chapéu, usava também um embornal, o qual nomeou, carinhosamente, de “vaca”. Da bolsa, ele retirou um pote de pimenta, outro de carne seca e um recipiente de farinha. Fez sua refeição e fomos embora. O garçom não questionou a atitude do artista, só observou à certa distância.

À noite, outros três acontecimentos chamaram a atenção. O primeiro foi a decepção de Elomar. Ao pararmos em frente à extinta casa de espetáculo “Canecão”, ele fitou os olhos na janela da “van” e disse que estava muito decepcionado, pensava que o local tivesse uma arquitetura inspirada em uma caneca, e que aquela sala de concertos era apenas um caixote gigante, a franqueza de um arquiteto de formação. O nome “Canecão” realmente fazia referência a uma "caneca", já que a casa de concertos foi, originalmente, concebida como uma grande cervejaria, isso anos antes de se tornar um espaço dedicado às apresentações artísticas musicais.

No mesmo dia, outro acontecimento divertido envolvia Elomar. Dessa vez, a produção também estaria envolvida. Existiam dois telões laterais ao palco, ambos projetariam o espetáculo com a transmissão simultânea do concerto, afinal, a casa era grande e a plateia que ficava em setores menos privilegiados seria beneficiada por essa exibição.

Era um “item” necessário, mas Elomar foi claro, não aceitava que sua imagem fosse projetada nos telões, ameaçou deixar o palco caso desrespeitássemos sua vontade. Obviamente a gerência da casa ficou furiosa, mas, no fim, aceitaram a condição.

Ligaram os equipamentos somente após Elomar finalizar sua apresentação, utilizando-os apenas nas demais apresentações que ocorreriam naquela noite de festival. Não parou por aí. Elomar era o artista que abriria o concerto e toda a divulgação informava que o início do espetáculo seria às 22h. Pontualmente, ele estava nos bastidores, preparado para iniciar sua atividade nesse horário. Empunhando seu violão, dizia que entraria no palco e iniciaria a apresentação.

Entretanto, as luzes da sala ainda estavam acesas, os áudios de segurança não haviam sido acionados, os operadores de som e luz não estavam em seus postos — isso porque a casa divulgava o início do espetáculo às 22h, mas, de fato, o evento iniciaria uma hora mais tarde.

Sabemos que as grandes casas de concertos faturam bastante com o consumo de bebidas, portanto, a casa em questão não iria ser pontual, mesmo que os artistas estivessem prontos e preparados para entrar em cena. Lógico que foi muito difícil convencer o cantador. Ele ficou realmente incomodado, disse que seu público merecia sua pontualidade. Claro que concordo com ele, mas a indústria artística não é perfeita, sua finalidade principal nem sempre é fomentar a arte.

O público também não é perfeito, a maioria segue a rigor o horário, respeitando e fazendo silêncio, mas existe a minoria, que atrasa e prefere conversar no momento em que o artista apresenta aquele solo maravilhoso. Ninguém é insuperável, nenhum gestor cultural é exato, nenhum artista é perfeito, isso porque somos únicos e humanos com nossas peculiaridades, qualidades e defeitos.

Para quem não conhece Elomar, por favor, pesquise, vocês terão uma surpresa maravilhosa. Viva Elomar!!! 


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