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  • Ive Nenflidio

Mestre da contação de causos


Todos sabemos que um instrumento musical é um objeto muito estimado pelos seus donos. Os mais surrados, aqueles marcados pelo tempo, aqueles que percorreram estradas, que encantaram gerações, são os mais adorados. Esses objetos têm grande valor afetivo.

Alguns músicos se vangloriam de usar peças antigas, lembro-me de um senhor da Orquestra Sinfônica do Estado do Paraná que me apresentou seu instrumento como uma criança que havia ganhado aquela bola preferida e tão desejada. Ele contava detalhes do objeto sonoro, a data da fabricação, como o havia adquirido, a quem pertenceu no passado, entre outras particularidades sobre o restauro e a afinação. Seus olhos brilhavam.

Vivi há uns anos um drama, era uma tarde, alguns artistas participavam da passagem de som, que nada mais é do que o momento quando os procedimentos de sonorização são adequadamente alinhados e ambientados, uma preparação para o concerto que acontece horas depois.

Estava passando próximo ao local da apresentação, parei e conversei com um dos contratantes do espetáculo parado em frente à estrutura de palco. Falamos sobre alguns detalhes de produção e nos despedimos.

O cantor, ator, compositor e mestre da contação de causos, Rolando Boldrin, me chamou. Me dirigi a ele para saber se precisava de algo, ele me fez algumas perguntas sobre o evento e me entregou seu violão. Me olhando nos olhos, solicitou que eu colocasse o instrumento sobre a cadeira de encosto de palha; imediatamente, atendi ao pedido e segui para fora do palco.

Alguns segundos depois, fui surpreendida por um barulho muito forte, o ruído era do violão que escorregara do assento, desfazendo-se em três partes no chão.

Quando virei e vi o instrumento destruído, quis morrer, minha vontade era cavar uma cova com as próprias mãos e me enterrar, queria sumir, foi uma queda impiedosa, não sobrou nada daquele pobre instrumento.

Apesar de o artista, gentilmente, ter falado que a culpa não era minha — afinal ele não deveria ter pedido para colocá-lo na cadeira, já que havia uma estante para os instrumentos —, mesmo assim, quis desaparecer e o fiz, retirei-me e chorei horrores.

Naquela noite, solicitei que ele me deixasse recuperar o violão, eu conhecia um dos maiores profissionais da luteria e queria ao menos tentar.

Tempo depois, levei o instrumento e o entreguei nas mãos de um artesão, tinha fé que ele arrumaria. Também adquiri outro novo para presentear o artista. Como eu imaginava, aquele mestre da luteria recuperou o violão, ficara praticamente novo.

Em poucos dias, me desloquei até a casa do artista com os dois instrumentos, estava de alma lavada, tinha reparado meu erro. Para alguém como eu, não bastava seu perdão, eu precisava me redimir. O artista ficou satisfeito.

Anos depois, nos encontramos em seu programa de auditório, ele me viu e disse: “espere aí, vou ali dentro buscar um violão velho procê quebrar!”.

Esse é Rolando Boldrin, um mestre da cultura popular, um gênio da contação de causos, um dos mais incríveis artistas da nossa genuína e imensa cultura brasileira.

Viva Rolando Boldrin!

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