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  • Ive Nenflidio

Abortando voo (crônica - coletânea Prêmio Off Flip de Literatura 2021)

Atualizado: Jul 15


Abortando voo (completo)


Gabriel García Márquez, Jorge Amado, Vinícius de Moraes, Graciliano Ramos, Ariano Suassuna e Dominguinhos, sabe o que eles têm em comum?

Todos sofriam de um tipo de transtorno de ansiedade conhecido como aerofobia ou, popularmente, o comum medo de voar.

Nos meus vinte e cinco anos como produtora cultural deparei-me com incontáveis embaraços, muitas vezes com distantes ou inviáveis soluções, dificuldades, muitos impasses, durante a produção de um grande evento, precisei alterar um cronograma para manter o artista Dominguinhos em um significativo festival multicultural.

Ele simplesmente não conseguiria assumir o compromisso, já que, no período do evento, estaria em turnê pelo Nordeste e suas viagens eram feitas todas por terra. Não que não tenha andado de avião, voou muito quando jovem, mas depois foi adquirindo um medo terrível e incontrolável.

Um dia conversamos sobre esse tipo de pânico, eu disse que o entendia, também sofria do mal, perturbação que constantemente também me consumia, ele sorriu, agradeceu e se desculpou, não queria ter dado trabalho.

Quem conheceu Dominguinhos sabe o quanto ele era gentil e doce, nunca reclamava de nada, tudo estava sempre perfeito, seja no palco ou fora dele, era sempre alguém disposto, alegre, mas entrar em uma aeronave o incomodava, era algo que o deixava profundamente aborrecido.

Outro gênio que sempre detestou voar foi Ariano Suassuna; para ele, só existiam dois cenários: ou a viagem seria entediante, ou catastrófica.

Durante um voo a comissária perguntou se ele estava com falta de ar, já que respirava profundamente e transpirava muito, ele respondeu que o problema era escassez de terra, não de ar!

Em outra ocasião um amigo tentou confortá-lo, disse que ninguém morria antes da hora, ele então questionou:

— E se for a hora do piloto?

Ariano, esse escritor genial, era assim, sempre contava com bom humor suas memórias aterrorizantes. O grande contador de histórias disse que sua fobia o havia impedido de viajar para locais que gostaria de ter conhecido, mas seu medo era maior.

Já Fernando Sabino dizia que os homens se dividem em duas espécies: os que têm medo de viajar de avião e os que fingem que não têm.

Pois, bem! Eu não finjo que não tenho, ao contrário, admito que tenho pavor. Como é necessário voar, tento não pensar ou focar na ação, simplesmente vou.

Meu medo tem uma origem. Numa decolagem, a aeronave, prestes a subir, abortou, foram alguns segundos de frenagem com a pista molhada, os ruídos eram intensos e os passageiros tiveram seus corpos projetados violentamente.

O mais assustador não foi o ato de frear subitamente, ou os gritos, ou, ainda, os rostos assustados da tripulação, o mais perturbador é saber que, dentro dos aviões, são transportados passageiros e que alguns sinônimos da palavra são: breve, fugaz, efêmero, finito.

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