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  • Ive Nenflidio

A torre


Quando criança, frequentava as missas matutinas que aconteciam aos domingos. Não conseguia assimilar aquelas elocuções, mas gostava de testemunhar as pessoas que, em súplicas emocionadas, em prantos incessantes, pediam aos céus e silenciavam.

Apreciava mesmo era a música. Esta parte sempre me cativou: as canções de protesto exibidas entre as orações e as citações sobre liberdade, emancipação e luta, que eram proferidas pelos padres da teologia da libertação. Suas falas eram fortes e exprimiam as dores de muitos que procuravam aquele espaço de reflexão.

Apesar de não decifrar os textos bíblicos, pois era muito garota, compreendia as falas sobre justiça, sobre dar pão a quem tem fome e essa parte da liturgia me agradava muito. Entre as mensagens de fé, canções de Chico Buarque e Geraldo Vandré...

Juro! Essas eram as canções que compunham parte do programa das cerimônias. Mesmo miúda, aquilo já me tocava profundamente.

Tempos depois, participei, contra minha vontade, dos cursos de catecismo e crisma. Eu era uma maquininha de fazer porquês e isso incomodava os ministros da igreja, que me mandavam ouvir, ficar quieta. Aos poucos fui perdendo o interesse.

Bom mesmo era subir na torre da catedral e observar lá do alto o centro da cidade. Adorava ver as pessoas lá de cima, os veículos, o efervescente comércio, a praça com seus campos floridos, as árvores de raízes centenárias — eram todos como miniaturas, escalas reduzidas, pequenas pinturas ou peças de um Playmobil, algo lúdico.

Com certeza a parte mais interessante do curso era me aventurar nas escadarias. Pena que logo descobriram minhas idas ao topo daquela torre empoeirada, cheia de pombos e teias de aranha, e, logo, bloquearam o acesso.

Já não conseguia subir os degraus que me conduziam a um lugar de profunda contemplação. Ali tudo era silêncio, não se ouviam as buzinas, a multidão... Era o único local onde de fato eu sentia Deus. Como na música de Gil, que diz, “Se eu quiser falar com Deus tenho que ficar a sós, tenho que apagar a luz, tenho que calar a voz, tenho que encontrar a paz”, era justamente assim que me sentia.

Depois, descobri o que me emociona: percebi que o que me rege são as falas sinceras, os rostos enrugados das velhinhas segurando seus rosários, suas faces molhadas pelas lágrimas derramadas durante as procissões de fé.

A fé, essa sim emociona, a beleza das orações que buscam acalento em corações aflitos, a natureza tentando resistir, a inocência nos olhos de uma criança, a busca desesperada por alimento do pai de família, as dores humanas, os animais — isso tudo me arrebata, pois, nelas, vejo Deus.

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