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  • Ive Nenflidio

Ira

Atualizado: 10 de Set de 2020

Quero falar sobre a ira, esse pecado capital tão comum que produz guerras, conflitos entre nações e destruições continentais.

No fundo, todos temos que exercitar a paciência, prestar atenção aos pequenos sinais de descontrole, como a intolerância, o mau-humor e a impaciência, mas quando a ira provoca sentimento de vingança?

Um homem, que adquiria espetáculos musicais e os revendia para as feiras do interior do país, havia entrado em contato para obter alguns ‘shows’ artísticos.

Naquela época, os artistas só viajavam após receberem seus cachês integralmente, os recursos deveriam estar disponíveis por completo, pelo menos três dias antes da data prevista da viagem, entretanto, em alguns casos extremos era possível rever essas condições.

Foi o que aconteceu na feira de tecnologia de Monte Carmelo, viajamos para a cidade com a condição de recebermos o restante do cachê na chegada do grupo ao local do evento.

Como de costume, logo que chegamos, os artistas foram descansar e a equipe técnica se dirigiu ao local do evento. A produção, então, procurou receber o restante dos recursos.

Assim, busquei o contratante por toda a feira; sem sucesso, deixei um recado e voltei para o hotel, alguns minutos depois, o mensageiro anunciou que ele me aguardava na recepção. Prontamente, desci para resolver a pendência de contrato e entregar a nota fiscal relacionada à parcela restante.

Munida de documentos e contratos, fui encontrá-lo. Ele, rapidamente, entregou uma folha de cheque; eu o olhei e disse que não aceitaria, pois o pagamento deveria ser em espécie, como o acordo estabelecido e assinado contratualmente.

Ele disse que eu poderia acreditar em sua honestidade, que o cheque tinha fundos. Mesmo assim, comuniquei que não aceitaria. Naquele momento, percebi que o homem ficou irado, um sentimento de vingança tomava conta daquele Senhor, ele pediu alguns minutos e disse que em breve voltaria.

Horas depois, apareceu, talvez tivesse procurado fazer exercícios de meditação, relaxamento, não sei ao certo, considerei que ele estava calmo, bem diferente da forma que havia saído horas antes.

Fiquei feliz, pensei que o contratante tivesse, finalmente, compreendido o meu ponto de vista, pois precisávamos seguir o acordado, mas, para a minha surpresa sua postura, aparentemente calma e serena, era parte de um plano de vingança.

Ele perguntou se poderíamos realizar a entrega de documentos e o acerto do cachê no dormitório, achei estranho, mas aceitei, chamei um dos músicos da banda para me acompanhar, ninguém menos que Natan Marques, o maior guitarrista de todos os tempos. Nos dirigimos ao aposento.

Chegando ao quarto, ele jogou sobre o lençol da cama cinco mil notas de um real, comecei a rir, não conseguia me controlar, ajoelhei e pus-me a contar aquele dinheiro sujo, encardido e suado. O controle emocional daquele homem era uma farsa, ele estava raivoso, havia cometido um dos sete pecados capitais. A ira!

Em situações mais graves, a ira se transforma em vingança, mas, como sempre, o pecador é quem mais se prejudica, é quem carrega o enorme peso nas costas, pela injustiça cometida.

O surpreendente foi saber que, para realizar sua pequena vingança, ele acabou com os trocados da cidade. Horas depois, pediu desesperadamente que eu devolvesse o dinheiro, pois ele precisava das notas miúdas para fazer rodar a sua praça de alimentação.

Na feira, os comerciantes das barracas de alimentos estavam furiosos, a ira daquele homem provocou a fúria de outras dezenas de pessoas, numa interminável bola de neve, uma situação na qual se não devolvesse os trocados o problema só pioraria.




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