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  • Ive Nenflidio

Luxo e Breguice

Atualizado: 10 de Set de 2020

Há alguns anos, fui responsável pela produção de um concerto. Até aí, tudo bem, entretanto esse evento seria um grande desafio, já que aconteceria no templo da cafonice. O local, a finada loja que mais se parecia com um “shopping”, comercializava produtos de alto luxo.

Vendia de tudo, desde relógios de cem mil dólares até aeronaves, o público era formado por estrambóticas madames, que se vestiam com alegorias, e seus perfumes quase sempre sentidos a quilômetros de distância.

Usavam joias por todo o corpo, com anéis em todos os dedos das mãos, além de cílios e gigantes unhas postiças. Gente avarenta, que gasta mais de duzentos mil dólares com uma bolsa Louis Vuitton.

​Essa produção foi realmente desafiadora. Semanas antes da data do evento, fui para uma visita técnica. Chegando ao local, fui impedida de entrar, meu carro não se parecia com os demais da fila, certamente o valor total do meu veículo era inferior ao retrovisor daqueles carrões.

​Mesmo assim, me mantive firme na fila, entreguei meu cartão de visita, informei que tinha uma reunião com a profissional de ‘marketing’ e eventos, fui orientada a estacionar na rua, afinal, ali eu teria um custo muito alto com o estacionamento. Enfim, esse seria somente o primeiro de muitos desafios, entretanto, um jovem se aproximou e educadamente disse que levaria meu carro. Fiquei surpresa, percebi que ali até os manobristas se dividiam em dois grupos, os que sabiam que eram meros serviçais e os bajuladores.

​O local era famoso por ostentar dinheiro, luxo e mulheres; percebi alguns homens ludibriando garotas, era nítido. Os clientes não eram atendidos por pessoas comuns e sim por jovens frívolas e ingênuas, muitas delas de famílias tradicionais da capital paulista. Meninas vazias de dar dó...

​Entrando no local, nitidamente me divergia daquelas pessoas, estava de tênis e calça jeans, enquanto a maioria estava de salto alto, parecendo se dirigir a um evento solene; me mantive obstinada, procurei a profissional.

​Fui recebida por uma garota, não tinha mais que vinte anos, seu nome podia ser empáfia, um ser imaturo e esnobe que, antes do cumprimento, me olhou dos pés à cabeça, e seguiu... Ela resolveu me apresentar o local onde seria montada a estrutura de palco. O lugar sem acessibilidade já se mostrava de difícil execução, já que teríamos que transportar um piano de meia cauda ao salão onde aconteceria o espetáculo, sem elevador de carga e com vários degraus.

​Na véspera do evento, quatro rapazes carregaram aquele piano, seus rostos vermelhos pareciam que iam explodir a qualquer momento, mas no final conseguiram. Trabalhar com eventos também pode ser bastante insalubre.

​Continuei observando o local, tentando buscar soluções para a execução daquele evento, nos deslocamos para um pequeno café. Paramos no bistrô, a jovem me ofereceu uma bebida, agradeci e aceitei, percebi que o local tinha alguns copos de cristal e umas garrafas de água da marca San Pellegrino. Quando dei o primeiro gole, senti um enorme enjoo, o copo era fétido. Não devia ser lavado há meses. Disfarcei e afastei o copo com a água malcheirosa. A pior água que bebi em toda minha vida!

​Mas o pior ainda estava por vir, esse realmente era o maior de todos os desafios, estava diante de pessoas racistas, como lidar com aquela situação?

​O evento contava com uma orquestra de jovens da periferia de São Paulo, e aquela profissional estava preocupada com os garotos pobres circulando dentro do mercado de luxo, disse que temia que roubassem algo. Naquele momento, fui acometida por um sentimento de grande aversão, fiquei por alguns minutos sem chão e apática, procurava a resposta para a fala discriminatória e criminosa; pouco vinha à minha mente, mas, como precisava contornar a situação, resolvi arriscar.

​Tive uma excelente ideia, eu sabia que ela validaria qualquer proposta sugerida. Então, indiquei que montássemos uma espécie de camarim coletivo no terraço, com um serviço de buffet para atender exclusivamente os jovens e a equipe operacional e técnica.

​Posso garantir, nunca montei uma lista de "catering" para camarins com tanto gosto. Abusei, exagerei, extrapolei, pedi de tudo um pouco, do bom e do melhor, solicitei muitos profissionais para atendê-los, penso que aqueles garotos nunca foram tão adulados, era o mínimo que eu poderia fazer por eles. O concerto foi realizado, eles estavam felizes, eu me senti recompensada.

​Nunca mais coloquei os pés naquele lugar asqueroso. Pouco tempo depois, os proprietários da loja foram condenados, acusados de formação de quadrilha, falsidade ideológica e descaminho.

​Os meninos da orquestra são grandes artistas premiados!



#Leitura #Clássicos #Literatura

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