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  • Ive Nenflidio

A Mente Brilhante de Geraldo Vandré

Atualizado: Fev 19


No início dos anos 2000, conheci um dos artistas mais excêntricos e misteriosos da música brasileira, Geraldo Vandré, o artista paraibano autor da obra-prima "Disparada" e do hino "Caminhando". Vandré morava sozinho num antigo prédio no centro de São Paulo; durante uma tarde inteira, conversamos sobre arte, música, literatura, física e sobre seu projeto artístico ainda em desenvolvimento.

Ele desejava produzir o concerto de uma amiga pianista que morava em Miami, o objetivo da proposta era construir uma grande estrutura no Paço Municipal da cidade de São Bernardo do Campo com, no palco, apenas a concertista e um deslumbrante piano de cauda.

Ele chegaria numa aeronave, sugeriu um helicóptero. Na época, não compreendi como seria sua chegada, perguntei se seria de rapel e ele respondeu, dizendo que não participaria do recital, apenas entregaria um ramalhete de rosas-vermelhas à intérprete.

Eu era bem jovem, tinha pouco mais de vinte anos, estava encantada com as ideias surpreendentes de Vandré.

Naquela tarde, as horas passaram rapidamente.

Vandré é um homem de raciocínio rápido, articula seus pensamentos de maneira espetaculosa, com muita coerência. Eu conhecia sua obra, é riquíssima, autêntica, reveladora, mas se apresentava conflitante com suas falas atuais. ​

Existiam muitos livros, arquivos, jornais, caixas espalhadas e empilhadas pelo apartamento, não tinha energia elétrica, o local era escuro mesmo durante o dia.

Vandré temia um curto-circuito na fiação daquele lugar, por isso havia desligado a energia do embolorado e asfixiante apartamento.

Na cozinha de ladrilhos amarelados e descorados, ele abrasava a tripa de carne bovina numa gambiarra que ele mesmo havia criado, uma espécie de resistência que funcionava à pilha, repetidamente, lembrava dos perigos de um possível incêndio. Colocava o embutido nas extremidades desse pequeno aparelho e o aquecia.

Ofereceu-me uma, agradeci, não tinha fome, pelo menos, não essa fome, tinha um apetite voraz, mas pelas histórias e memórias que saíam de sua boca.

Na parede, um histórico cartaz de tempos de grande notoriedade, era uma imagem desbotada de Vandré; no retrato, um jovem participante dos grandes festivais de música brasileira.

Na ocasião do nosso encontro, ele tinha aproximadamente sessenta anos, e perguntou se eu julgava que uma tinta no cabelo pudesse fazê-lo ficar parecido com a foto envelhecida estampada na parede.

Respondi que a tinta poderia sim remoçar, mas que achava desnecessário, que seus cabelos brancos eram bonitos e revelavam um novo momento de sua vida. Nunca achei bonita tinta em cabelos masculinos.

Em sua morada cheia de surpresas inesperadas, em outra parede do ermo corredor, cercado de pequenos retratos, um mapa-múndi invertido de propósito, não demorei a perguntar o motivo, a resposta de Vandré veio em forma de aula, me apresentou uma nova concepção de espaço e até desenhou em sua mente suas espetaculares falas, esboçando minuciosamente cada detalhe.

Gênio incomparável, segurando uma fruta, apresentou suas teorias, conceitos físicos, técnicas de dedução, lógica e análise crítica com explicações racionais, uma verdadeira aula ministrada de forma natural, sem formalidades, com humor e leveza, que apenas os grandes mestres conseguem produzir.

Em alguns momentos, se parecia com um cartógrafo rabiscando em sua mente suas ideias sobre espaço e a posição da esfera global, algo oportuno para ser abordado, especialmente, nos dias de hoje quando presenciamos tantos adeptos do “terraplanismo”. Nós nos despedimos e combinamos de falar mais sobre a ideia de realizarmos um grande concerto ao ar livre.

No dia seguinte, partilhei com outro artista as criações brilhantes de Vandré, ainda digeria a nossa conversa fomentadora. Entretanto, fui profundamente desencorajada, pois para mentes mais tradicionais tudo aquilo era louco e inconcebível.

Dias depois, Vandré ligou, queria um novo encontro, mas acabei desistindo da parceria. Perdemos contato, porém continuo apreciando a obra desse artista. O considero um dos nomes mais criativos da produção cultural brasileira.

Vandré foi impedido de trabalhar, tiraram sua voz, os vorazes do obscurantismo, ávidos do poder atentaram contra muitos, sugaram como vampiros a energia, o alimento vital, o oxigênio.

Nunca conheceremos de fato, os horrores que muitas pessoas sofreram, as diversas formas arbitrárias de dominação e tolhimento, mas é certo, que na história da humanidade a luta nunca se encerra, é eterna.

Historicamente a arte sempre exerceu um posicionamento crítico, guiando pensamentos de luz nos momentos mais sombrios da humanidade, acredito que esse é o maior legado da obra musical de Vandré -, uma criação delineada, celebrada e consagrada em experiências truculentas, que dê certo, impediu que usufruíssemos de tudo que Vandré ainda poderia produzir.

Os versos de Vandré são e sempre serão formados por palavras e elementos revolucionários, não com o propósito de ser violento ou atentar contra algo ou alguém, mas como a única possiblidade de criar uma ponte com o novo, com o futuro, com o tempo, retratando as aflições da nossa gente e seu almejado lugar ao Sol.

Para quem não conhece a obra de Vandré, pesquise, compartilhe, relembre, prestigie! Sua intrigante história estará sempre presentes na memória cultural brasileira... Apesar de sua esquisitice, é inegável que se trata de um dos maiores nomes da MPB.


Alguns trechos das suas letras fortes e acrônicas...

“.... Olha que a vida tão linda se perde em tristezas assim

Desce o teu rancho cantando essa tua esperança sem fim

Deixa que a tua certeza se faça do povo a canção

Pra que teu povo cantando teu canto ele não seja em vão

Eu vou levando a minha vida enfim

Cantando e canto sim

E não cantava se não fosse assim

Levando pra quem me ouvir

Certezas e esperanças pra trocar

Por dores e tristezas que bem sei

Um dia ainda vão findar

Um dia que vem vindo

E que eu vivo pra cantar

Na Avenida girando, estandarte na mão pra anunciar”

Ou...

"eu venho lá do sertão

e posso não lhe agradar

aprendi a dizer não

ver a morte sem chorar"...

ou

"que sol quente que tristeza

que foi feito da beleza

tão bonita de se olhar

que é de Deus da natureza

se esqueceram com certeza

da gente deste lugar

olhe o padre com a vela na mão

tá chamando pra rezar

menino de pé no chão

já não sabe nem chorar

reza uma reza comprida

pra ver se o céu saberá.

mas a chuva não vem não

e esta dor no coração

ai, quando é que vai se acabar,

quando é que vai se acabar?"...


Vandré nunca deixou de ser um exilado!

Viva Vandré!





#Entrevista #Autor #Literatura

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